O conceito já não era novidade. Os The Who já o haviam feito, com pompa e circunstância em 1969, tocando "Tommy" no palco da Metropolitan Opera , perante uma audiência de gravatas e vestidos de luxo e não apenas perante uma multidão de miúdos de cabelos compridos no mítico Woodstock . "Tommy", que narra a história de um miúdo cego, surdo e mudo, que ainda assim é um campeão de Pinball , foi a primeira Ópera Rock.
De certo modo, a Ópera nunca foi vista pelos "puristas musicais" como uma forma natural de arte, uma vez que as pessoas simplesmente não se encontram numa esquina e começam a cantar umas para as outras. Porém, ao longo dos tempos, os compositores foram acrescentando á Opera pitadas de Folk , Ragtime e Jazz , com vários níveis de sucesso, como é o caso da "Pergy & Bess" de Gerschwin , com a sua combinação de tons de Jazz e Folk .
Pete Townshend , o cérebro dos Who, acrescentaria os Decibéis do Rock á equação com um excelente resultado, mas a evolução não ficaria por aí. Em 1971, o liricista Tim Rice e o Compositor Andrew LLoyd Webber fariam algo mais do que juntar algumas baladas de Rock e fazer uma Ópera. A obra em questão é a célebre Ópera Rock "Jesus Christ Superstar" .
Esta peça foi concebida nos mesmos moldes que clássicos como "Don Giovanni" ou "Fausto" . É composta por árias, duetos e actos. Apesar de se basear num tema amplamente representado artisticamente, a Crucificação de Cristo , vai muito além dele, fluindo com imaginação, usando formas reais e ambições como qualquer outra Ópera, mas com uma grande diferença: As suas personagens principais são apresentadas com "sombras" subtis e toda a história é narrada á luz da época presente (no caso do original, o início dos anos 70, ainda que a mesma perspectiva continue surpreendentemente actual nos dias de hoje).
Muito resumidamente, o coração da narrativa consiste na história que começa com a aclamação de Jesus como líder de um povo, o consequente tumulto que tal premissa causou nos líderes locais, o odioso episódio da traição e a consequente crucificação de Cristo.
Esta obra, inicialmente composta para ser representada em palcos, algo que acontece ainda hoje, após milhares de representações diferentes, tanto por profissionais como amadores, atingiu a sua maior exposição em 1973, quando foi adaptada para o Grande Ecrã, tornando-se esta a versão definitiva. O filme teria imenso sucesso e seria vetado pelo Vaticano, graças a ser considerado demasiado moderno e devido á já clássica demasiada proximidade entre as personagens de Jesus Cristo e Maria Madalena.
Tudo começa com uma "Overture" á maneira de "Tommy", com os instrumentos típicos de uma banda de Rock aliados a uma Orquestra. A acção decorre num deserto e todo o elenco entra em cena a bordo de um autocarro, que carrega a grande Cruz de madeira no tejadilho. Todos os personagens começam a vestir as suas roupas á medida que a intensidade do som vai aumentando. Nesta representação Pascal, os Centuriões Romanos empunham metralhadoras e calçam sapatilhas Adidas!
É logo no primeiro acto, "Heaven on their Minds" , que brilha a verdadeira estrela da companhia : O cão, o traidor, o desprezado entre os desprezados. Sim, esse mesmo, o Judas . Representado por Carl Anderson , Judas Iscariotes é a personagem que acaba por "roubar" o protagonismo ao artista principal, Jesus Cristo , representado por Ted Neeley .
Judas aparece nesta peça como aquele que, mais do que simplesmente acreditar cegamente, questiona e coloca dúvidas em relação às palavras e acções do Mestre. A voz forte e a expressividade da representação de Anderson são espectaculares, atingindo proporções épicas no acto "Damned for All Time/ Blood Money" , quando Judas se arrepende, demasiado tarde, da sua traição. Outra figura fundamental é a Maria Madalena , representada por Yvonne Elliman . A bela "I Don´t Know How to Love Him" foi sem dúvida a única "canção" que acabou por sobreviver independentemente do resto da obra. (Entre muitas outras, a Sinead O´Connor , a mesma que rasgou a foto de João Paulo II, tem uma bela versão).
"Jesus Christ...", apesar de toda a sua inovação, foi uma obra de inspiração religiosa, tal como o foi o pomposo "Messias" de Handel , tratando os temas Bíblicos com respeito, embora não se limitando apenas às suas conotações religiosas.
Musicalmente, seria a mais "Rock" das maravilhas saídas da pena do Sir LLoyd Webber. Alguma dúvida? Notem: "Evita" , "Cats" , "The Phantom of the Opera" são apenas os pontos mais luminosos da sua extraordinária carreira como compositor. Esta fórmula inspiraria muitos musicais Rock nos anos seguintes, tendo sido de Longe o grandioso "Bat Out Of Hell" de 1977, interpretado por Meat Loaf e composto por Jim Steinman , o seu "filho" de maior sucesso.